AERÓDROMO DE BELMONTE: AGORA SÓ FALTA O POVO TER AVIÃO

Belmonte, essa metrópole do interior baiano, finalmente entrou no século XXI  e não foi com hospital novo, nem escola reformada, nem saneamento básico. Foi com um aeródromo. Isso mesmo. Porque o que o cidadão belmontense mais precisa é de uma pista nova para pousar o jatinho que ele, obviamente, tem estacionado na garagem de casa. Ou não?

A grande obra  ou melhor, o monumento à inutilidade popular  começou na gestão do prefeito Bebeto Gama, em 2022 e já virou peça de marketing político. Com direito a foto de capacete branco, placa com valor milionário e promessa de “desenvolvimento”. R$ 5,7 milhões investidos na recuperação da pista, ampliação de 100 metros (porque 1.200 metros é muito pouco pro avião invisível do povo), sinalização reforçada, novo portão de acesso e manutenção do terminal de passageiros  aquele mesmo terminal que vive vazio há séculos , mas agora vai ser mantido com todo o carinho do Estado.

Setembro é o mês da entrega. Mas a entrega é pra quem?

Porque o trabalhador de Belmonte continua indo pra roça de moto velha, pra cidade vizinha de ônibus caindo aos pedaços e pro hospital com a sorte nas mãos. Mas agora ele pode sonhar mais alto  literalmente. Afinal, se não tem comida no prato, pelo menos tem pista pra avião.

E o mais engraçado é ver a turma batendo palma, fazendo vídeo, discursando como se estivessem inaugurando o novo Galeão. Falam em segurança, em estrutura, em fomento ao turismo. A pergunta é simples: quem vai descer nesse aeródromo? O turista com medo da estrada esburacada? O investidor que não sabe nem onde fica Belmonte no mapa? Ou será que é só mais uma obra com cheiro de luxo pra poucos e propaganda pra muitos?

Porque o povo mesmo aquele que sofre com as estradas rurais em péssimo estado, na escola caindo aos pedaços, na rua sem calçamento, no mato tomando conta de tudo  esse continua olhando pro céu, não pra decolar, mas pra ver se Deus resolve intervir onde o poder público só pousa em época de eleição.

No fim das contas, o Aeródromo Doutor Roberto Cunha vai servir sim: pra pousar o marketing e decolar a velha política do “faz de conta”. O resto, que espere no saguão da esperança.

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