Era uma vez um sítio farto, onde o capim crescia verde e viçoso. Diferente de outros donos de terreiro, o Cavalo era um líder bom, justo e trabalhador. Sempre ajudava as galinhas a achar milho, puxava a charrete dos fracos sem cobrar favor e dividia a sombra das árvores com quem precisasse. Todos respeitavam e amavam o Cavalo.
Mas quem tem bondade no coração às vezes esquece que a maldade anda à espreita.
O Boi, um bicho pesado e de olhar dissimulado, começou a tramar nas sombras. Invejoso do carinho que o rebanho tinha pelo Cavalo, o Boi queria o poder a todo custo. Para isso, aliou-se à Raposa, uma bicha faladeira que se fingia de conselheira de todos, mas só vendia fofoca.
Juntos, os dois armaram um plano sujo. A Raposa usou sua lábia mansa para envenenar a cabeça do Potro Novo — o filho do Cavalo —, fazendo o jovem acreditar que o pai estava ultrapassado e que o trono deveria ser dele. Enquanto pai e filho se desentendiam por causa das mentiras da Raposa, o Boi sorria no curral, achando que o golpe estava ganho e que a sela principal já era sua.
Só que o Cavalo podia ser bom, mas não era tonto.
Sentindo o cheiro de traição no ar — mais forte até que o capim guiné —, o Cavalo abriu os olhos bem a tempo. Viu a Raposa cochichando mentiras para o seu guri e viu o Boi relinchar de alegria antes da hora, achando que o trono já estava vazio.
O sangue subiu à crina. O Cavalo chamou o filho de canto, abriu os olhos do Potro Novo com duas palavras firmes e fez as pazes com o herdeiro num abraço de pai. A armação da Raposa desmoronou ali mesmo, em segundos.
Com o rebanho inteiro unido e sabendo de toda a traição, o Cavalo não esperou o golpe acontecer. Deu um pinote, empinou com força e, numa arrancada só, passou a rasteira no Boi, mandando o trambiqueiro de bunda no chão de lama.
A Raposa, ao ver o parceiro estatelado e o Cavalo furioso vindo na direção deles com fogo nos olhos, nem esperou o segundo aviso: meteu o rabo entre as pernas e saiu disparada, cantando de galo bem longe daquele sítio. E o Boi? Tenta correr até hoje, mas ficou com a fama de traidor e nunca mais pôs os casco no pasto principal.
O Cavalo continuou reinando, cercado de respeito, mostrando para todo o terreiro que a maldade até tenta dar o bote, mas a força de quem é bom de verdade derruba qualquer traidor.
