Uma onda silenciosa, mas inquietante, vem ganhando força nas redes sociais e fóruns online, alcançando até mesmo os rincões da Bahia: a cultura incel. Abreviação de “involuntary celibates” (celibatários involuntários), o termo descreve uma subcultura majoritariamente masculina que se define pela incapacidade de estabelecer relações românticas ou sexuais, apesar do desejo por elas. Na Bahia, e especialmente no sul do estado, especialistas apontam que esse fenômeno está em ascensão, trazendo consigo riscos significativos para os jovens, como a radicalização, a misoginia e até a possibilidade de violência.
A cultura incel, que nasceu na década de 1990 em um contexto de apoio mútuo criado por uma jovem canadense chamada Alana, tomou rumos sombrios ao longo dos anos. Hoje, ela é marcada por ressentimento, autopiedade e, em muitos casos, ódio às mulheres, alimentado por comunidades virtuais como Reddit, 4chan e fóruns na dark web. No Brasil, essa ideologia tem encontrado eco entre adolescentes e jovens adultos, e a Bahia não está imune. No sul baiano, cidades como Porto Seguro e Teixeira de Freitas já registram sinais dessa influência, com relatos de jovens participando de grupos online que disseminam discursos misóginos e racistas, muitas vezes adaptados à realidade local.
Um estudo recente da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), publicado em 2025, investigou a conexão entre a cultura incel, masculinidade tóxica e racismo no Brasil. A pesquisa destaca que, diferente dos Estados Unidos, onde o movimento muitas vezes se alinha ao nacionalismo branco, no Brasil ele assume tons antipatriotas e racistas, com termos pejorativos como “Bostil” (para o Brasil) e “pardola” (para pessoas pardas) sendo comuns em fóruns frequentados por brasileiros. Na Bahia, onde mais de 80% da população é afrodescendente, segundo dados históricos do IBGE, essa retórica ganha contornos ainda mais preocupantes, misturando frustrações pessoais com preconceitos estruturais.
A série “Adolescência”, da Netflix, lançada em 2025 e já um fenômeno global, jogou luz sobre o tema ao retratar um jovem britânico de 13 anos radicalizado por ideias incel, culminando em um crime brutal. No sul da Bahia, professores e pais relatam que o comportamento de alguns adolescentes reflete padrões semelhantes aos mostrados na trama: isolamento, consumo excessivo de conteúdo online e discursos que culpam as mulheres por rejeições. “Os jovens entram nesses espaços buscando apoio para sua solidão, mas acabam capturados por uma ideologia de ódio”, explica a socióloga Bruna Camilo, pesquisadora de gênero e extremismo. Ela alerta que a combinação de pressões sociais, como a busca por validação masculina, e o acesso irrestrito à internet cria um terreno fértil para essa radicalização.
Na região de Teixeira de Freitas, por exemplo, já há registros informais de jovens trocando mensagens em grupos de WhatsApp e Telegram com termos como “Chad” (homens atraentes), “Stacy” (mulheres desejáveis) e “blackpill” (crença fatalista de que a aparência determina o sucesso amoroso). Em Porto Seguro, um professor de uma escola pública, que pediu anonimato, contou que flagrou alunos debochando de colegas com frases como “você nunca vai sair do incel mode”. “É uma brincadeira para eles, mas o tom de desprezo e raiva está lá”, relata.
Os riscos para os jovens baianos são múltiplos. Além do impacto na saúde mental – com aumento de casos de depressão e ansiedade relatados por psicólogos locais –, há o perigo de que essas ideias evoluam para ações violentas. Casos internacionais, como o ataque de Elliot Rodger em 2014 nos EUA e o de Alek Minassian em 2018 no Canadá, ambos ligados à ideologia incel, servem de alerta. No Brasil, a presença desses grupos na dark web, como apontado por uma reportagem do Metrópoles em 2025, já inclui incentivos a feminicídios e massacres, algo que preocupa as autoridades baianas.
O governador Jerônimo Rodrigues, em recentes declarações sobre segurança pública, enfatizou a necessidade de monitorar o extremismo online, embora ações específicas contra a cultura incel ainda não tenham sido detalhadas. Enquanto isso, especialistas defendem que a solução passa por educação e prevenção. “Precisamos falar de afetividade e autoestima nas escolas, oferecer alternativas antes que esses jovens sejam sugados por fóruns tóxicos”, sugere a psicóloga Ana Luísa Abreu, do projeto MaRvel, que estuda masculinidades no Brasil.
Na Bahia, onde a cultura popular é marcada por festas, música e calor humano, a ascensão da cultura incel parece um contrassenso. Mas, para os jovens do sul do estado, conectados ao mundo digital, ela é uma realidade que cresce nas sombras. A pergunta que fica é: até quando esse fenômeno será tratado como um problema distante? Ficar de olho – e agir – é mais urgente do que nunca.
