Com 862 m² e tombado pelo Iphan, o imóvel integra a poligonal do Centro Histórico de Salvador, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial. Em posição privilegiada — de frente para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e ao lado da Fundação Jorge Amado —, o casarão passou por um cuidadoso retrofit, preservando sua estrutura original, mas incorporando novas funcionalidades e tecnologia.
A Casa da Ponte conta com estúdios de gravação, salas de ensaio, espaços para aulas individuais e coletivas de música e áreas voltadas à experimentação artística. Além disso, o local será sede de projetos sociais e culturais idealizados por Ubiratan Marques, como o “Ponte para as Comunidades”, que tem o objetivo de oferecer formação musical gratuita a jovens de comunidades periféricas.
Outro destaque é o quintal, que oferece uma vista privilegiada para a Baía de Todos os Santos e receberá a construção de um deck com café e área para apresentações, reforçando a proposta de integração entre arte, educação e convivência.
Durante a inauguração, o maestro Ubiratan Marques destacou o simbolismo do espaço e sua importância para a valorização da cultura negra:
“É simbólico que esse espaço agora pertença a um projeto voltado à população negra, pensado e conduzido por pessoas negras.”
Quem é o Maestro Ubiratan Marques
Natural de Salvador, Bahia, Ubiratan Marques é pianista, compositor, arranjador e maestro de música sinfônica, reconhecido como uma das grandes referências da música afro-brasileira contemporânea.
Tendo iniciado seus estudos como autodidata em 1983, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1986, onde estudou Composição com Ernest Widmer, Lindenberg Cardoso e Agnaldo Ribeiro. Em 1994, já em São Paulo, na Universidade Livre de Música Tom Jobim, aperfeiçoou-se em Instrumentação, Orquestração e Arranjo, além de Piano Popular, tendo como mestres Roberto Faria, Cyro Pereira e Hans-Joachim Koellreutter, entre outros.
Enquanto iniciava sua formação acadêmica, integrou a Banda Reflexus, um dos primeiros grandes fenômenos da Axé Music, ao lado de nomes como Luiz Caldas, Gerônimo, Chiclete com Banana e Olodum. A banda gravou quatro álbuns, vendeu mais de 1 milhão de discos e conquistou cinco discos de ouro e seis de platina, marcando época na música baiana e nacional.
De raízes profundamente ligadas ao sul da Bahia, Ubiratan é neto da Mãe de Santo Guiomar Carolina, natural de Belmonte, município com o qual o maestro mantém um forte vínculo afetivo e espiritual. A força de sua ancestralidade belmontense está presente em toda sua trajetória artística e inspira sua criação musical.
Essa conexão com Belmonte, cidade marcada por tradições afrodescendentes e pela resistência cultural de seu povo, é um dos pilares de sua obra. Ubiratan traduz essa herança nas composições e arranjos da Orquestra Afrosinfônica, que parte de pesquisas sonoras e propõe uma leitura erudita da música afro-brasileira, e no projeto Terrero de Jesus, que oferece uma interpretação jazzística dos ritmos e cantos de orixás, os pontos de candomblé.
Com a inauguração da Casa da Ponte, Ubiratan Marques reafirma sua missão de unir ancestralidade e modernidade. O maestro que carrega em suas veias o legado espiritual de Belmonte agora transforma um casarão histórico do Pelourinho em um símbolo de resistência, identidade e inovação, fortalecendo o protagonismo negro na música e na cultura da Bahia.

