A corrida rumo à Assembleia Legislativa da Bahia ganhou contornos que misturam drama, baixaria e aquela velha mania da nossa classe política de transformar eleição em acerto de contas pessoal. Na rota do cacau e das belezas naturais, a Costa do Descobrimento virou palco de uma guerra aberta entre clãs que não economizam adjetivos — e nem o passado — na hora de tentar destruir o adversário. De um lado, a deputada estadual Cláudia Oliveira; do outro, o jovem Jânio Natal Júnior, filho do prefeito de Porto Seguro. Quando os microfones ligam, a máscara cai e o vale-tudo está oficialmente instaurado.
Tudo começou num palanque em Belmonte, onde a deputada Cláudia Oliveira resolveu destilar sua soberbia habitual. Com o nariz empinado, mirou o adversário novato e disparou sem dó: “Esse rapaz nunca trabalhou. O que esse rapaz fez na vida?”, questionou, como se o mandato parlamentar fosse um crachá de clube exclusivo herdado por direito divino.
Mas a resposta veio com juros e correção monetária. Jânio Júnior não levou desaforo para casa e usou as redes sociais para devolver o golpe na mesma moeda ou melhor, com o troco multiplicado. O rapaz lembrou sua passagem pelo serviço público, citando o Detran e a Ebal, mas o tiro certeiro não foi o seu currículo: foi a memória curta (ou seletiva) da rival.
Júnior jogou no ventilador o passado administrativo de Cláudia em Porto Seguro. Acusou a gestão de oito anos de não ter deixado “uma escola sequer” e, claro, resgatou o elefante na sala que nenhum marqueteiro consegue esconder: a Operação Fraternos, da Polícia Federal. Lembrou ao eleitor baiano o afastamento do cargo, as acusações de desvio de mais de 200 milhões de reais da saúde e da educação, e a lembrança indigesta de que ela e o marido chegaram a ser presos. Para arrematar, encheu o vídeo com recortes de telejornais nacionais. É o sujo falando do mal-lavado em rede nacional.
Nos bastidores, os analistas políticos já desenham o mapa da ópera: o desespero bateu à porta do grupo de Cláudia Oliveira. Afinal, perder para o filho do velho arquinimigo Jânio Natal, depois de já ter sido derrotada por ele duas vezes nas urnas em Porto Seguro, seria a pá de cal na trajetória de um grupo político que já mandou em três prefeituras da região e hoje agoniza controlando apenas Eunápolis.
É triste ver que, enquanto a população sofre com serviços públicos precários, estradas esburacadas e falta de oportunidades, nossos candidatos entram em campo dispostos a provar quem tem o pior telhado de vidro. O eleitor da Costa do Descobrimento não precisa de ringue familiar nem de lavagem de roupa suja na internet; precisa de propostas, decência e respeito ao dinheiro público. Mas, pelo andar da carruagem, o que vamos ver até outubro é muita lama voando e pouca solução para o povo. E o pior: com o nosso dinheiro pagando a conta desse circo.
