EDITORIAL | Orelha foi morto. E a omissão também mata.

O cachorro Orelha não morreu.
Orelha foi morto.

E é preciso dizer isso sem rodeios, sem eufemismos, sem o conforto das palavras mornas que só servem para anestesiar consciências. O que aconteceu com Orelha foi um ato de crueldade consciente, praticado por alguém que escolheu ferir, escolheu violentar, escolheu matar.

Isso tem nome: crime.

Não era um animal perigoso.
Não era uma ameaça.
Não era um “incômodo”.

Era um ser vivo indefeso, que confiava no ser humano — e pagou por isso com a própria vida.

E aqui começa a parte que mais incomoda: a morte de Orelha não expõe apenas o autor da crueldade. Ela expõe uma sociedade que ainda trata a violência contra animais como algo menor, secundário, quase aceitável. Expõe a covardia coletiva de quem vê, sabe, comenta… e se cala.

Silêncio, nesse caso, não é neutralidade.
É cumplicidade.

Quando autoridades não agem com rigor, transmitem um recado claro: pode repetir. Quando a investigação não avança, legitima-se a barbárie. Quando tudo termina em indignação passageira, a violência vence.

Não se trata de “amor aos animais”.
Trata-se de caráter.

Quem é capaz de torturar ou matar um ser indefeso não falhou apenas com a lei, falhou como ser humano. E uma sociedade que relativiza isso está, perigosamente, treinando o olhar para aceitar o inaceitável.

Hoje foi um cachorro.
Amanhã, quem será o próximo “descartável”?

A legislação existe. A tipificação do crime é clara. O que falta não é lei , é vontade. Falta coragem institucional para dizer que crueldade não será tolerada. Falta indignação que vá além das palavras bonitas.

Orelha sentiu medo.
Sentiu dor.
E morreu sem entender por quê.

E se isso não nos revolta profundamente, então o problema já não é apenas quem matou Orelha , é tudo o que permitiu que isso acontecesse sem consequências imediatas.

Justiça não pode ser opcional.
Punição não pode ser simbólica.
E a memória de Orelha não pode ser varrida para debaixo do tapete do esquecimento.

Porque quando uma sociedade protege o agressor com o manto da omissão, ela escolhe, de forma muito clara, de que lado está.

E esse lado não é o da civilização.

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