EDITORIAL : A Assembleia dos Sapos

Na vasta e verdejante Lagoa das Ilusões, havia um soberano que acreditava, piamente, que o coaxar era uma forma de música erudita. O Sapo-Boi, um anfíbio de ambições desmedidas e estômago elástico, comandava a lagoa com a sutileza de um trator. Ele tinha uma técnica infalível: o “sorriso amarelo”. Era uma expressão facial tão artificial que, de tão esticada, parecia uma máscara de carnaval deixada ao sol.

O Sapo-Boi era, acima de tudo, um pragmático da traição. Durante anos, foi o braço direito da Serpente, aquela autocrata que, ao invés de proteger o ecossistema, tinha o hábito indigesto de devorar os sapinhos menores e instaurar o terror nos pântanos. Quando a serpente foi finalmente enxotada, o Sapo-Boi, com a mesma rapidez com que se captura uma mosca, trocou de pele.

“Eu? Com a serpente? Jamais! Eu sempre fui um democrata da lagoa”, coaxava ele, enquanto tentava, em vão, disfarçar seu histórico de malfeitorias.

Sua cobiça, porém, não conhecia limites. Ele olhava para a Floresta, onde o Leão mantinha a ordem, e pensava: “Aquele trono ali cairia bem na minha verruga”. Começou, então, a encenar uma peça de teatro. De repente, o sapo que antes tratava os girinos como massa de manobra, passou a distribuir promessas de lírios frescos. Montou um exército de 200 girinos, uma tropa de choque barulhenta, cuja única função era espalhar a boa nova do “Sapo-Boi Renovado”.

Mas a fauna é boba, porém não é cega. Os habitantes da floresta, que já tinham visto o estrago que ele fizera na administração da lagoa, olhavam para aquele espetáculo caricato com desdém. Ele tentou de tudo: prometeu, enganou, mudou de lado, e até tentou colar no Leão, jurando lealdade eterna ao soberano da floresta, na esperança de beliscar um cargo qualquer.

Veio a Grande Assembleia. Foi o dia do acerto de contas. O Leão, magnânimo e firme, permaneceu no posto. E na lagoa? Ah, na lagoa, a democracia foi implacável. O povo, cansado de tanta conversa fiada, resolveu que era hora de trocar o sapo por algo que, pelo menos, tivesse o dom da verdade: elegeram o Grilo, o antigo porteiro da lagoa, famoso por ser um “falador” que, ao contrário do Sapo, falava a língua de quem trabalhava.

O Sapo-Boi, outrora o rei do coaxar autoritário, viu seu império de girinos desintegrar-se como bolha de sabão. Sem a cadeira de rei, sem a proteção da serpente e sem o sorriso amarelo para salvar a pele, não restou outra alternativa senão a de todo oportunista caído: o ostracismo.

Hoje, dizem que, se você caminhar pelas margens mais lamacentas e esquecidas da lagoa, encontrará um buraco escuro e solitário. Lá vive um ex-político anfibiano, remoendo a própria insignificância e descobrindo, tarde demais, que o poder construído sobre a falsidade não tem alicerces — é apenas lama.

Moral da História:

“Quem troca de convicções como quem troca de pele acaba, cedo ou tarde, descobrindo que não há esconderijo grande o suficiente para ocultar o vazio de uma alma sem caráter.”

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