EDITORIAL: O cabo vai sair da marreta

Dizem que na selva, quando o tempo de colheita se aproxima, os animais costumam mostrar quem realmente são. Existe uma árvore frondosa, conhecida por todos, que durante anos estendeu seus galhos para abrigar aqueles que, sozinhos, não teriam como se proteger do sereno. Esses protegidos, alimentados pelas frutas dessa mesma árvore, agora decidiram que o solo onde cresceram já não é fértil o suficiente.

Criaram asas ; não para voar alto, mas para buscar o grão no quintal do vizinho.

O dono da floresta, que tanto zelou para que não faltasse o sustento nas alcovas desses protegidos, assiste a tudo com o silêncio de quem sabe o valor do solo que pisa. Enquanto isso, um estranho, vindo das matas distantes da cidade vizinha, começa a circular pelos corredores, distribuindo promessas brilhantes que, como vidro, reluzem muito, mas cortam as mãos de quem tenta segurá-las.

Há um movimento silencioso, quase furtivo. Aqueles que deveriam cuidar da colheita do seu próprio mestre estão, na calada da noite, trocando a semente legítima pela semente do estranho. Pensam que o dono da floresta é míope, ou talvez apenas se escondam atrás da própria sombra, acreditando que a escuridão os tornará invisíveis aos olhos de quem, no fundo, conhece cada trilha que eles percorrem.

4 de outubro, às 17h. O cabo vai sair da marreta.

Quando o estrondo ecoar e a poeira baixar, o cenário revelará a verdade que a prudência tentou mascarar. Aqueles que ocupam as onze poltronas de honra deste salão, que hoje se dividem entre a lealdade aparente e a traição rasteira  descobrirão que a urna, tal qual uma balança antiga, não mede intenções, mas pesos.

Para onde correrão os que serraram o galho enquanto ainda estavam sentados nele? Quando o sol se pôr naquele dia, o destino dos equilibristas será óbvio: ou estarão abraçados à árvore que os sustentou, ou estarão no chão, colhendo o que plantaram na terra alheia.

A marreta já está sendo erguida. Resta saber se, quando o cabo se soltar, os ocupantes das cadeiras estarão do lado de quem construiu a casa ou do lado de quem apenas espera os escombros.

VEJA TAMBÉM

Leave a Comment